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Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo todo, mais de 300 milhões de pessoas sofrem com depressão e 260 milhões têm transtornos de ansiedade. O impacto econômico estimado com esses males é de prejuízo anual de US$ 1 trilhão em produtividade. Além dessas doenças, a Síndrome de Burnout, um esgotamento físico e mental intenso diretamente ligado à vida profissional, também vem crescendo. Mais do que nunca, proporcionar bem-estar aos colaboradores e eliminar culturas tóxicas passa a ser estratégico para as companhias.

“De fato, há muita procura por atendimento para essas patologias (ansiedade, depressão, burnout) e é importante encontrar os gatilhos, se existe uma causa ou não para depressão e os fatores que podem ter acarretado o burnout. Para destacar acontecimentos mais frequentes, posso citar estresse, ambiente de trabalho tóxico, assédio moral e falta de reconhecimento”, explica a psicóloga Luciana Mayumi Taguti (sobre esses transtornos, gatilhos e formas de fortalecer a saúde mental, leia a entrevista ao fim do artigo).

Eliminar culturas tóxicas

Somente no Brasil, transtornos de saúde mental constituem a terceira causa de incapacidade no trabalho e, nos últimos dez anos, a concessão de auxílios do tipo aumentou quase 20 vezes, de acordo com o Ministério da Previdência Social. Dados do relatório Tendências em Saúde Mental na América Latina e Caribe 2019, da Mercer Marsh, consultoria em benefícios e seguros na área da saúde, ajudam a entender os motivos: apenas 25% das companhias da região possuíam políticas ou programas de saúde mental para funcionários.

Apesar de hoje as empresas lutarem para manter o essencial – os empregos -, cuidar do equilíbrio emocional de colaboradores está mais para investimento do que para gasto. Especialistas apontam que o absenteísmo causado por transtornos mentais é até três vezes maior que de problemas de saúde ditos físicos. Por essa razão, RHs já estão olhando com mais atenção para programas internos de bem-estar e mudanças estruturais que visam a eliminar culturas tóxicas (veja quadro abaixo) e promover a saúde mental de funcionários.

saúde mental engajamento

Atendimento on demand

Segundo o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o Brasil conta atualmente com quase 370 mil psicólogos – 110 mil deles apenas no no Estado de São Paulo. Outras regiões, contudo, não têm essa cobertura. Uma solução para facilitar o acesso ao tratamento e que vem quebrando resistências é a terapia online, regulamentada pelo CFP em 2018. Uma das principais empresas do setor é a Zenklub, plataforma criada em 2016 cujos atendimentos acontecem por meio de aplicativo ou pelo site, de forma criptografada.

Médico e CEO do Zenklub, Rui Brandão diz que o serviço “democratiza o acesso à saúde emocional com uso de tecnologia, oferecendo sessões de terapia online com especialistas de diversos backgrounds”. A empresa nasceu depois de um caso de burnout na família, em que foi difícil encontrar ajuda. “Percebi que olhar para o bem-estar emocional precisava ser visto da mesma forma que nós olhamos e nos preocupamos com plano de saúde ou vamos até um hospital quando estamos doentes; da mesma forma que quando queremos cultivar a nossa saúde física procuramos uma academia”.

Engajamento e ganhos de produtividade

Muitas companhias perceberam que, em uma conjuntura de isolamento social, a terapia online pode ser a diferença para a saúde mental de seus colaboradores. “Para se ter uma ideia da importância da saúde emocional nesse período, aumentamos em 400% o número de empresas parceiras que irão oferecer o serviço para colaboradores ou clientes. Nubank, Gympass e Natura são alguns exemplos”, afirma Brandão.

O momento é realmente atípico e as pressões se acumulam. Planejar o médio e longo prazos começa com ações no presente e, como apontam as tendências, os ganhos de produtividade e a economia gerada com o bem-estar dos funcionários não podem ser menosprezados. Relacionamento com clientes, sejam B2B ou B2C, depende do engajamento dos colaboradores. Criar ambientes e processos mais harmônicos, com espaço para diálogo, ajuda e feedback é vital para qualquer negócio.

Confira abaixo a entrevista com a psicóloga Luciana Mayumi Taguti*:

Equilíbrio emocional e resiliência

O que RHs podem melhorar em seus processos e culturas e como podemos buscar uma vida mais saudável, nos tornando mais resilientes do ponto de vista emocional.

Quais as queixas mais comuns das pessoas com relação a seus trabalhos? O que você identificaria como um grande gatilho de doenças psíquicas?
Luciana Taguti – As reclamações e problemas atingem muitos pontos diferentes como performance, realização pessoal, equilíbrio entre vida profissional e pessoal e relações interpessoais de baixa qualidade. Para destacar acontecimentos mais frequentes, posso citar estresse, ambiente de trabalho tóxico, assédio moral e falta de reconhecimento.

O que os Recursos Humanos das empresas poderiam, ou deveriam, fazer para minorar esses problemas e engajar melhor seus colaboradores?
Abrir espaço para ouvir seus colaboradores, praticar a empatia, promover treinamentos para evitar assédio moral, criar espaços e, se possível, ambientes para pausas. Incentivar o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, incentivar a atividade física ou implantar ginástica laboral, equilibrar a presença do colaborador com trabalhos home office, oferecer condições de trabalho e criar um ambiente realmente acolhedor. Sempre é possível adequar a realidade para melhores condições, por maior ou menor que a empresa seja.

Ouve-se muito falar sobre os transtornos mentais do século, a era da ansiedade, da depressão, burnout… qual a sua experiência no atendimento terapêutico?
De fato, há muita procura por atendimento para essas patologias. O [ponto] principal é encontrar os gatilhos, se existe uma causa ou não para depressão e os fatores que podem ter acarretado o burnout. Lembrando que os gatilhos são diferentes para cada um, os sintomas geralmente são os mesmos, mas o que acarreta, dispara é diferente para cada indivíduo, assim como a forma correta de resolvê-los, também precisa ser personalizada, adequada à realidade de cada um.

E, agora, sob uma situação de quarentena e de ainda mais incertezas, que tipo de pressões você acha que as pessoas podem ter de enfrentar?
Essa situação pode acarretar consequências como dificuldade financeira, acúmulo das atividades domésticas, administrar a vida com o cônjuge e filhos. Para os solitários, a própria solidão, o medo de que aconteça algo e estar sozinho. Se houver pré-disposição, a quarentena pode ser um gatilho para o aparecimento de transtorno obsessivo-compulsivo (medo do vírus, paranoia, passar a lavar as mãos excessivamente), transtorno bipolar (alternar entre mania e depressão), transtornos alimentares (descontar ansiedade na comida ou deixar de comer por não poder se exercitar), depressão (pela solidão, pela incerteza, por não dar conta de tudo sozinho), ansiedade (sofrer por antecipação). E, para tornar a situação atual ainda mais complexa, vivemos uma extrema incerteza, ninguém sabe até quando isso irá durar e como será o mundo quando esse problema for superado.

O que fazer para ter uma vida mais saudável do ponto de vista mental, como ser mais resiliente?
Criar uma rotina, buscar ajuda, usar a tecnologia a favor da produtividade e com equilíbrio. Ter espaço para um “detox” de notícias, evitar excessos (notícias, trabalho, comida, sono, exercício, tudo que excede não é bom). Aprender com o passado, viver o presente, planejar o futuro de forma saudável, criando metas, objetivos viáveis e realizáveis. Identificar seus incômodos e resolvê-los da melhor forma possível. Tirar os problemas da frente. Pequenos hábitos como manter uma rotina de sono, tirar o pijama e entender que está em horário comercial, fazer jornadas conscientes sem o excesso ou a procrastinação das atividades, podem contribuir para tornar o momento menos complicado.

*Luciana Mayumi Taguti, especialista em conflitos amorosos, doenças crônicas, psicossomáticas, mudança de carreira e síndrome do pânico, é formada no Instituto Presbiteriano Mackenzie e especializada no InCor. Possui experiência na gestão de áreas de recursos humanos, atendimento clínico e hospitalar e é uma das profissionais do Zenklub.

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