Há uma batalha acontecendo há anos entre as marcas por bens cada vez mais escassos: o interesse e o tempo das pessoas. Mas na era da chamada economia da atenção, a fidelização é o ás na manga das empresas que querem gerar boas experiências para seus clientes, com relações mais humanas e economicamente satisfatórias para todos.
O termo “economia da atenção” foi cunhado pelo psicólogo, economista e prêmio Nobel norte-americano Herbert A. Simon (1916-2001), nos anos 1970. Especialista em comportamento humano e processos decisórios, ele propôs que a atenção era “o gargalo do pensamento humano”, ou seja, há um limite para nosso foco cognitivo e de ação. Ele também discordava do termo “economia da informação”, pois economia pressupõe o estudo de um recurso escasso ou finito, e a informação, seja relevante ou não, é virtualmente infinita. Daí outra frase de Simon: “abundância de informação gera pobreza de atenção”.
Essa descrição retrata bem nossa realidade: milhares de estímulos sensoriais, muitas telas, pouco tempo e a certeza de estarmos soterrados por informação inútil. Nesse contexto, um fator quebra o padrão, a experiência. O relatório Salesforce Connected Customer, por exemplo, aponta que para 79% dos consumidores, a experiência é tão importante quanto produtos e serviços.
É assim que economia da atenção e fidelização se cruzam. Em artigo sobre relacionamento com clientes, o [à época] vice-presidente de Marketing Latin America da Salesforce, Carlos Busch, afirmou que “à medida que produtos se tornam menos distinguíveis por marca e preço, uma ótima experiência do cliente é essencial para as empresas se diferenciarem”.
É o caso da guerra do streaming. Netflix, Amazon Prime Video e Disney +, além de outros canais, vão investir este ano US$ 230 bilhões em conteúdo para um público estimado de 700 milhões de pessoas. Número, porém, que vem caindo – a Netflix deve anunciar em março “apenas” 2,5 milhões de novos assinantes no trimestre, o menor desde 2010.
A churn rate, por outro lado, sobe. A Apple tv+ tem os piores índices de retenção, perdendo 10% de seus assinantes por mês, o que significa que a cada ano, ela troca mais de 100% de sua carteira, segundo a empresa de análise de dados Antenna. Clientes vêm e vão de acordo com o conteúdo disponível, mas outros fatores também têm peso nessa decisão: user experience, consumo de dados, navegação etc.
Não há dúvida de que há milhares de horas de entretenimento nesses canais, mas quem tem tempo para consumir tudo isso? Como afirmou o físico e PhD Matthew Crawford, pesquisador do Institute for Advanced Studies in Culture at the University of Virginia, a “atenção é um recurso – uma pessoa possui apenas uma certa quantidade dela”.
Por isso, o conteúdo é (e será) o carro-chefe dos canais de streaming, mas fica claro que apenas isso não basta para reter as pessoas. Por um motivo, quem quer atenção, tem de dar atenção. O foco no cliente deve significar reter o foco do cliente. Produto bom e preço competitivo atraem, mas relacionamento e experiência é que fidelizam.
Um ponto essencial que pode estar faltando na guerra do streaming é o senso de comunidade. Marcas famosas por venderem estilos de vida, como a Nike, Patagonia ou Starbucks promovem cada uma à sua maneira senso de pertencimento a algo maior. Elas não disputam a atenção dos clientes, elas oferecem a sua atenção por meio de experiências positivas.
Essas experiências positivas podem ser criadas a partir de uma estratégia de Loyalty, seja por meio de programas de fidelidade ou de ações pontuais, mas de longo prazo, para aperfeiçoar o relacionamento com os clientes. Isso inclui pensar em toda a jornada, da redução de atritos na assinatura a uma interface amigável dos sites, passando por atendimento humanizado e personalização.
Um caso de sucesso é o da IKEA. Apesar de sua fama, a gigante sueca de móveis populares do tipo monte-você-mesmo não vende apenas estantes ou mesinhas de centro. A companhia oferece experiências positivas a seus consumidores e seu programa de fidelidade, o IKEA Family, é uma das mais importantes ferramentas nesse processo.
Gratuito, os membros do IKEA Family têm direito a cafés grátis e descontos, cupons de aniversário, 14 dias para trocas, além de assessoramento e até oficinas grátis variadas de do-it-yourself. Papais e mamães que vão às lojas ainda podem deixar os pequenos brincando em playgrounds supervisionados com atividades por uma hora.
O resultado? Em 2020, o programa superou o número de 150 milhões de membros no mundo todo. A receita: simplicidade, relevância e atenção. Há quase um século, a escritora francesa Simone Weil (1909-1943) resumiu bem o tema, “Atenção é a mais rara e pura forma de generosidade”. É hora de as marcas colocarem essa generosidade em prática.
O Radar TSI #267 traz um alerta sobre a segurança dos programas de fidelidade, discute…
Quase todos os programas de fidelidade querem crescer em 2026, mas muitos ainda não sabem…
Um olhar sobre os grandes temas de fidelização que atravessaram o TSI em 2025 —…
O Radar TSI #266 explora por que os programas baseados em pontos seguem ganhando força,…
Entenda como a comunicação influencia o valor percebido e o engajamento em programas de fidelidade,…
O Radar TSI #265 explora discussões sobre o cibercrime no loyalty, onde estão as falhas…